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Eu estava concluindo o curso de Design de Móveis na UTFPR, quando entrei para a Comissão Organizadora do Encontro Nacional de Estudantes de Design (CONDE), que aconteceria em Curitiba. Durante mais de um ano trabalhei nessa comissão com mais de 50 pessoas. Era responsável pela área de conteúdo e, naturalmente, minhas melhores amizades estavam ali, com quem trabalhava diretamente.

Uma das meninas que trabalhava comigo me chamava a atenção pela honestidade e calma frente às situações tensas que enfrentávamos (50 voluntários não tornam fácil a tarefa de chegar a um acordo). O nome dela era Erika e ela também estava terminando seu curso (Design de Produto da UFPR), fazendo TCC, trabalhando numa agência, e mesmo assim estava sempre em paz. Nos tornamos boas amigas e, depois de alguns debates efervescentes sobre religiões, aceitei o convite para visitar sua igreja. Era dia de um evento de artes com um nome curioso, Celebrando Jesus. Mas, fui na igreja para ver uma exposição de arte, só. Mas, acabou sendo mais que isso. Foi uma quebra de estereótipo. Coloquei o pé dentro da igreja, conheci pessoas e ninguém me mordeu! Ou seja, não foi algo agressivo, e esse foi um fator bem importante.

Deus usou nossa amizade para me alcançar. Curitiba é minúscula, e os estudantes de Design são um grupo ainda menor e unido, na época, todo mundo se conhecia. A Erika também era estudante de Design, mas a gente não se conhecia. E eu acho muito legal isso, ver como Deus colocou a gente no caminho uma da outra, no momento certo, no momento que estava preparada para ouvir o que Ele tinha pra mim. Até hoje fico intrigada como o tempo Dele é perfeito.

Tivemos várias conversas sobre religião na casa dela, e nessas conversas eram eu de um lado, com minhas várias “certezas”, e a Erika do outro, questionando e me fazendo pensar. Deus usou a paciência dela, seu conhecimento bíblico e histórico para confrontar minha cabeça dura em nossas discussões, e sua inteligência emocional e dedicação ao trabalho para me despertar admiração. Quando lembro disso, me pergunto se eu tenho hoje essa mesma coragem de questionar e apresentar a Verdade pras pessoas. Somos todos evangelistas, basta estarmos abertos pra compartilhar quem somos.

Eu não conheci Deus antes dos meus 23 anos, mas com certeza Ele já me conhecia. Digo isso, porque enxergo em minha vida muitas características que hoje fazem total sentido, como se Ele já tivesse me programado para os planos que tinha para o meu futuro.

Sempre tive meu coração voltado para questões sociais, e desde a adolescência era bem envolvida em movimentos e lutas sociais e, como estudante de uma universidade pública, me sentia no dever de devolver para a sociedade o que estava sendo investido em mim. A extensão da universidade é a comunidade. E com esse pensamento, promovemos trotes solidários com os calouros do curso e outras ações sociais. Quando comecei a minha caminhada com Jesus continuei com essa ideia sobre projetos sociais, mas agora entendendo isso a partir de uma perspectiva bíblica, na qual somos responsáveis por nossas ações diante das injustiças (livro de Tiago, capítulo 4), mas Deus é Deus, e todas as coisas dependerão Dele.

Em 2012, a Erika foi para a Índia trabalhar como designer em uma empresa social, chamada Freeset, que oferece oportunidade de emprego para mulheres em condição de risco. Ela morou lá e trabalhou lá como profissional em missões durante um ano. Nesse meio tempo, aqui no Brasil, eu estava estabilizada, trabalhando como projetista de móveis e mergulhando no estudo da Bíblia, para recuperar o tempo perdido. Conheci o Projeto Dorcas pelas apresentações nos cultos, e achava tudo fantástico, mas lamentava não ter tempo para me envolver.

Quando a Erika voltou da Índia, foi desafiada pela Comunidade a continuar o que estava fazendo lá, aqui no Brasil, mais especificamente no bairro Bonfim, onde funciona o Projeto Dorcas. O Projeto já oferecia aulas de costura para a comunidade, e tinha alguns produtos que eram produzidos. A sementinha já estava ali: a ideia de uma empresa que tivesse impacto social e proclamasse o Reino de Deus. Junto com a Mari, que é formada em Design de Produto, começamos a sonhar.

Como a Erika estava trabalhando no Dorcas diretamente, começamos a pensar juntas sobre a realidade que observávamos no bairro, no curso e no projeto, visando melhorar o eixo de geração de renda. Ao pesquisarmos diferentes mercados, percebemos que poderíamos trabalhar como uma empresa, e não apenas aumentar a linha de produtos. Como eu já havia feito muitos cursos de empreendedorismo social, conhecia bem os modelos que poderíamos implantar. Era meu sonho trabalhar em uma empresa social, fazer com eles para eles. Como passo de fé saí do meu emprego e comecei a me dedicar integralmente ao Projeto. Meus primeiros almoços no Projeto foram com a Katia, que mora na comunidade, tinha feito o curso de costura 2 anos antes e estava recém voltando de várias tentativas de abrir diferentes negócios. Ou seja, logo de cara conheci alguém super empreendedora. Uma prova de que poderíamos ajudar e orientar as pessoas da comunidade a abrir seus próprios empreendimentos.

Definido que abriríamos a empresa, começamos a pesquisar diferentes mercados e tivemos muitas ideias. Por bicicleta ser algo que fazia parte de nosso contexto de vida e a oferta de acessórios para ciclistas ser escassa e restrita, decidimos que a empresa faria acessórios para esse público. Fomos para esse nicho com a proposta de produtos que prezam pela sustentabilidade, função e diversão. E assim nasceu a Bonfim.bike.

Entender essa realidade hoje, como cristã, é fantástico! Pra mim é um baita privilégio estar aqui. Uma vida toda querendo trabalhar com algo que nem eu sabia ao certo o que era, e de repente, Deus desenha um negócio e me coloca para administrar. Ia na igreja e ansiava por colocar em prática o que ouvia ali e, para uma ativista como eu, não tem nada melhor que colocar a fé em prática.

O projeto estava a todo o vapor, e eu sem renda, pagando aluguel de um apartamento no centro da cidade. Comecei então a levar a sério a necessidade de morar no bairro, ser parte daquela comunidade e fazer a transformação de dentro pra fora. Mas procurei casas no bairro e não encontrei. A Darclê, coordenadora do Dorcas, me ofereceu um espaço nos fundos do Projeto, que ainda precisaria ser reformado. Enquanto a reforma estava sendo feita ela me abrigou em sua própria casa, porque acabou durando mais tempo que o planejado, afinal foi feita em comunidade. Mas, a reforma não foi feita só na minha futura casa, mas também em mim. Eu sou muito orgulhosa, tinha essa coisa de não querer incomodar ninguém. Demorei pra perceber que isso era arrogância. Minha vinda para o bairro Bonfim me obrigou a pedir ajuda o tempo todo! Precisei de todo tipo de apoio e preciso e aprendo com isso até hoje! Mas nessa época especificamente, vi meus amigos virem vários finais de semana seguidos para quebrar paredes, passar canos, pintar… O Samuel até aprendeu a colocar azulejos no Youtube e foi na minha casa que ele praticou!

Além disso, pessoas começaram a doar móveis e objetos para minha casa e, por um lado eu pensava “o que vier é lucro”, mas não podia negar que a estética das coisas me importava. Estudei Design, não podia negar isso em mim. Então, foi me dando um desespero na época, porque me via ganhando um monte de coisas, diferentes umas das outras… (me perguntava também se caberia no espacinho que tinham cedido pra mim) Pensei que minha casa seria um carnaval! Sabia que isso era frescura e não necessidade. Pra minha surpresa, Deus atentou para isso, para esses mínimos detalhes. Ele poderia me dar o básico, já seria o bastante. Mas ao finalmente montar a casa percebi que eu gostava de tudo o que estava ali, as coisas combinavam! E ainda que me sentia em um lar e não só em uma casa! Pela primeira vez não era como um estacionamento, onde eu chego, durmo e tomo banho, mas sim, o meu lar onde sinto aconchego!  Pessoas diferente, doando coisas que combinavam! Divino! Era só estética sim, mas importava pra mim, e Ele sabia! Aprendi então que “a cereja no bolo” importa pra Deus. Isso me constrange.

Não desmereço as pessoas que cresceram na igreja e caminham com Jesus desde cedo, gostaria muito de ter sido uma delas e quero que meus filhos vivam isso. Mas, olho pra trás, e vejo muitas coisas positivas no fato de eu ter começado minha caminhada só aos 23 anos. Com essa idade, eu já estava formada e já havia passado por vários conflitos, tinha uma certa maturidade. Pude conhecer a Deus nesse contexto e perceber, através da leitura da Bíblia, que posso confiar Nele. Pude acreditar que os pássaros não semeiam, e ainda assim são extremamente cuidados por Deus… Quem dirá eu, Ele prova isso a cada dia, na prática. Não conhecia nenhum amor assim. Nem nenhum livro assim, com vida. Então, conhecer esse Pai, que é Pai de verdade, é fantástico! Um Pai que te acompanha, te ama e é imutável? É divino.